segunda-feira, 21 de junho de 2010

Hibernado entre as montanhas


Um quarto no alto
Portas e janelas fechadas
Nenhum suspiro de fora entra
O único suspiro de dentro não sai.

Dois dias enlaçado ao silêncio
Um mês, um ano, uma vida inteira
O pensamento é as três refeições diárias
O quarto no alto, o suspiro e um gole de saudades.

A vitrola moderna com som e imagem começa a tocar
Sonata ao luar o corpo ganha equilíbrio
Olhos fechados, ouvidos satisfeitos com cada som
                                             [Das teclas do piano.

O vento La fora puxa as folhas da copa das arvores
                                                        [em renovação.
Traz a chuva que respinga na janela despida da cortina
As montanhas de longe revelam a neblina que engole
Metade de sua extensão.

Hibernando ao lado das montanhas
Ao som que flui das mãos geniais de Beethoven
Envergado entre o escuro e o lençol
Estirado no leito fragmentado pelas saudades.

Hibernando entre as montanhas
Incapaz de enfrentar o anacronismo humano para
                                             [comprar um jornal.
Incapaz de deixar o cômodo escuro
Pelo dia La fora cheio de luz e trevas.

Em silêncio ao som do gênio
Em silêncio com o copo na mão e o vinho no estomago
Esquentando o coração vazio e fechado
Em silêncio dorme, distante sonha com o inesperado.

Ao lado da cama um livro rabiscado
Uma caneta sem tinta, um poema desbotado
Ao lado das montanhas um sol inventado
Iluminando um cômodo no alto repleto de grades.



terça-feira, 8 de junho de 2010

Cosntrução


Em uma bicicleta desvendo o mundo em minha vida
Um vasto mundo sem muita grandeza só esperança
Indo com os pensamentos na frente e pedaladas
De forte gigante procurando algo, pasto verde, tempo
Fresco, nuvens limpas, espaço vazio.

Procuro o vento soprante do sul, quero outro caminho
Sem buracos e desnivelamento. O norte não me fugiu
Da memória ainda e tão cedo não esquecerei, sou filho
Do norte, no norte nasci, no norte cresci, tomei tendência
Na vida e foi do norte que parti a procura do sul amontoado
De concreto, empilhamento de casas e barracos entre
Lixos que chumaça o esgoto fétido.

Não tenho na vida nada que tenho nos sonhos, não tiro
Da vida nada desprezível, tiro apenas o que de proveito
Ergue-me tijolo por tijolo com o objetivo único terminar
A obra inacabável, onde jaz um telhado para terminar
E uma vida inteira para povoar.

A vida é assim muitas obras, muitos construtores e nem
Todos conseguem chegar ao telhado.



São Vicente, 17/02/2008

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A liberdade


E se pensar que a vida, que o mundo é gigantesco La fora onde o singelo acontece em terras desconhecidas. E se pensar que é prazeroso levar as liberdades nos ombros curtos e que o sustentáculo dessa liberdade é cada suspiro de emoção, de descoberta, de algo a se unir em constante contemplação esperando o próximo inesperado levantar-se.

E se pensar que um ser tem a possibilidade de viver fora dessa gaiola de mesmice, de hora certa para tudo, de tudo maquinalmente programado. E se pensar que a natureza é grandiosa e viver nos braços dela é como está blindado de proteção, como esquecer toda forma insignificante de respiração, correr o mundo, sair em disparada, surgir em cada aurora em luz de liberdade, sentir o verdadeiro gosto da vida e então inebriar-se com ela sem receio do que possa acontecer na próxima curva. O ir adiante sem medo, sem precaução, hora marcada, sem o não do quase certo.

Abrir os olhos e perceber um novo horizonte aceso em chamas vivas, vários horizontes mágicos e picantes, sem a sinalização ordenando parar no lugar certo na hora certa, sem placas, sem rastos de vida que não seja da natureza. Apagar qualquer contato humano e seguir adiante em busca dos novos horizontes prestes a estourar infinitamente para engrandecer o espírito.

domingo, 6 de junho de 2010

Final de tarde


O canto das gaivotas em revoada
O desabrochar das nuvens
Sobrecarregadas.
O dilúvio se anuncia
O vento sopra
Entre raios e trovões.
A cidade inteira se recolhe
No bolero de um final de tarde
Uma cidade inteira se agasalha.