sábado, 2 de julho de 2011

Vida de menino


Sentido controverso sempre em direção ao caos urbano, sempre com o desejo atiçado na mente de deslumbrar o mundo, conhecer pessoas diferentes com suas culturas, outras instancias, outras filosofias, outras rebeldias. Desde menino sonhador, viajante do mundo, do fantasioso, lembro bem de quando minha mãe me chamava e eu nem escutava distraído com os desenhos que pintava e os sonhos que me penetravam a memória, só após o grito estrondoso que ela soltava ao ponto de romper meus tímpanos.
-Inácio..., Inácio..., Inaciooo...! Eu respondia todo assustado,
-Estou ouvindo mamãe.
-Se estivesse ouvindo não teria me deixado gritar, vem logo se vestir ta na hora de ir ao médico, não deixe chamar outra vez. E eu levantava com um pouco de pânico ir ao médico é sinal de que tem alguma coisa errada em mim e só de pensar isso já arrepiava todo, era só um exame de sangue desses que detectam vermes não tinha porque temer. É tão demoroso levantar, depois se contorcer dos pés a cabeça, aprendi com minha irmã toda vez que acorda é essa mesma peripécia de alongamento, mas também levantei com um pouco de felicidade pelo sonho de ante mão que tive não lembro muito bem dos sonhos, mas eram sonhos distantes, conhecedor do mundo, cheios de desejos, cheios de promessas, cheios de contentamentos e alegorias. Ir ao extremo da vida, sem medo dos acontecimentos que surgem, sem medo das saudades, nem mesmo das barreiras que nascem fácil, dos acontecimentos que rompem sentimentos e das necessidades que se tornam presentes no momento exato da exaustão de tudo.

Tentei aproveitar o máximo as conversas que tive com meu pai sobre o mundo lá fora, conversas curtas, mas que não deixaram de ser conversas, conversas frias, conversas quase e somente por gestos, principalmente de minha parte pedra agonizante que sempre fui. Meu pai me dizia sempre que conversávamos.

-Nada nesta vida é de graça, sonhar é maravilhoso pena que custe tão caro por em pratica alguns deles. Eu fui sonhador assim como você, sonhava ser jogador de futebol eram profundo cada sonho, ficava boquiaberto com cada gol do rei, com cada drible do Garrincha, tentava imitá-los no campinho que eu e seu tio construímos aqui onde agora é nossa casa, éramos os melhores, eu, seu tio, Everaldo, Sabino, Cardoso, Josafá, Amilton, Tonho, Arlindo, Pedrão e Dede grande Dede, grande goleiro. Formamos um time imbatível aqui na região. Eu boquiaberto ficava com todas aquelas lembranças e imaginava todos aqueles homens já vividos, todos aqueles que meu pai falava como se estivesse montando o time para jogar uma pelada naquele exato momento, homens do passado distante e descente, homens esquecidos pela juventude. Hoje não correria mais que poucos minutos em câmera lenta.

Hoje meu pai não consegue com seus sessenta anos equilibrar a bola nos pés como antes sitiado em seu antigo sonho de ser astro da bola. Vejo-me com o meu, longe de acontecer, às coisas nem se modificaram ainda, sinto ainda bastante necessidade de pai e mãe chego da escola minha mãe põe o prato na mesa: feijão, arroz, farinha se quisesse, duas bananas e frango cozido sempre o frango cozido não podia faltar na mesa. Acabando de comer o caminho era as sombras das fruteiras que eram muitas, mas a que mais gostava sem dúvida era a da jaqueira, subia e ficava a pensar na vida de tanta coisa para acontecer. De lá via meu pai chegando do trabalho e corria a ajudá-lo regar as verduras tirava água do poço e molhava diretamente os pés de alface, couve, coentro, quiabo tudo bem distribuído em leiras grandes. Eram duas atividades em casa que meu pai fazia quando chegava do trabalho regar as verduras e rodar todo o terreno para ver se estava tudo bem e sempre vinha com uma novidade era umas formigas que estavam ultrapassando para nossas terras vindas do terreno vizinho ou algo que tinha por fazer e nem eu nem meu irmão fizemos. A noite comia do cuscuz e café que meu pai aprontava enquanto minha mãe não desgrudava da TV assistindo novela, meu pai gostava de cozinhar pelo menos fazer o café, café bom o café vindo do fogo a lenha, depois a cama estava pronta para logo cedo ir à escola.

Descobrir que a vida de menino é filosofia pura aflorando em desejos loucos de experimentação as coisas mais singelas dentro das aprovações de seus pais que são no início da vida professores rígidos buscando sempre a educação decisiva e definitivamente, ensinado conter e se proteger dos perigos dessa vida que são de mais, ensinando a me virar sozinho e que o auxílio a eles viesse a ser apenas para o indispensável.Vida de menino, vidas assim crescendo bem moldada para deixar na face enrugada dos pais o orgulho e satisfação de que tudo ensinado foi seguido mesmo tão longe, sozinho, sofrendo, mesmo com a nostalgia dos tempos antigos, dos tempos de moleque correndo na beira do rio, no quintal de casa, nas proximidades dos pais, queridos pais.