domingo, 25 de agosto de 2013

Meu irmão: uma infância inteira e nada foi como deveria ter sido.



Estou a pensar na infância, mas a unica imagem que me vem a mente é a de meu irmão em uma tarde de verão intenso atirando uma pedra em minha direção, eu abaixando atrás de uma fileira de telhas velhas e a pedra assim mesmo me alcançando e sai sangue, e eu choro, choro muito. Estou a dias pensando, a relação com meu irmão teve seus altos e baixos, mais baixos do que alto. E nunca conversamos sobre mulheres, conversamos pouco sobre futebol, quase nunca conversávamos, jogávamos bola no quintal de casa para isso eramos fieis. Dividíamos o mesmo quarto, torcemos para o mesmo botafogo de trote mansos de outrora e nunca estendemos a mão um para o outro, nunca deixamos transparecer o sentimento encolhido em nós, eramos estranhos que se conheciam nada mais.

Hoje confesso que sou mesmo um cara estranho para sentimentos, o que sinto sinto pouco, o que guardo não é mais que brevidade e demagogia vencida, nada me atrai, o que os outros tem para me oferecer não me interessa. Meu irmão está lá e eu estou aqui não mais dividimos o mesmo quarto e se a pequena distância de antes nunca foi barreira para uma distância ainda maior entre nós, hoje ela se estende para o infinito e o que a entre nós é apenas remorsos, culpa, mais distância e uma variante que ronda o tempo, as lembranças retornam para mostrar cada pilar erguido de forma incorreta desabando no presente, cada laço desfeito ao longo do caminho, cada erro pisado e repisado pela memória é o que resta.

O "eterno retorno" já não valeria nesse ponto pra mim, não suportaria viver isso tudo de novo assim, eu acrescentaria o diálogo e o afeto no vasto espaço entre eu e meu irmão, eu o entenderia mais vezes porque hoje não o entendo definitivamente. A amizade verdadeira deveria reinar mais nos laços de sangue, se isso só contasse, se o ambiente fosse um só para todos aqueles que vivem uma vida de harmonia um com outro seria mais fácil. Talvez meu irmão não guarde nada da infância, talvez lembre de mim, mas não da forma que lembro dele como meu irmão totalmente esbelto, talvez ele nem tenha percebido que o tempo passou  e só nós distanciamos um do outro, que ele casou e eu permaneço aqui a pensar nele.

                                                                                Aracaju, 25/08/2013

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