domingo, 13 de abril de 2014

Avenida solidão

De bicicleta corto a avenida Rio de Janeiro de uma ponta a outra. A solidez da madrugada ressoa na linha férrea que separa ida e volta, a cidade inteira parece dormir menos os garis, os bêbados  e as prostitutas desfilando quase nuas enquanto os garis limpam a sujeira que os bêbados vomitam. O sabor doentio da solidão habita o céu da boca e mesmo na noite estrelada meu coração é um mar de pedras, um abismo de saudades, ando assim desatento, um carro freia em cima sigo andando como se nada tivesse acontecido, olhar para traz seria prova do meu descuido com a vida.


Na madrugada a lua me segue, entre a lua e eu existe uma cumplicidade desafiadora, eu habitando-a constantemente. De bicicleta um homem pensa mais do que transpira, o suor que desce de sua testa não é jamais do esforço físico, mas sim dos pensamentos que correm sua extensa memória. O tempo constrói vagarosamente o ser pensante, cada pedalada se torna outro, porque pensa pensamentos distantes, porque ouve o vento dissonante, porque a lua nunca chega. Enquanto não findo a avenida Rio de Janeiro meus pensamentos vão tecendo o suor, enquanto a lua permanece em seu lugar eu sigo a seu encontro que se dará provavelmente no infinito. O tempo me parece com uma prostituta dessas da Rio de Janeiro cheias de desejos para dar e depois sumir para nunca mais. 

Um comentário:

  1. O que o Rio dá? E a prostituta?
    Entre o mar e a montanha.... no momento, a montanha.
    Altas escritas, mano.
    Abraço!

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